janeiro 27, 2009

Noite de verão



"Este não sou eu
Meus lábios nos seus lábios não são meus
O meu olho no seu olho no meu olho no seu
Duvida do que vê

Deve ser um rei
Deve ser um deus
O homem que possui você..."
(Chico + Edu Lobo > 2001)

HISTÓRICO: Não sei que magia têm os (meus) olhos. Mas (quase) sempre foi assim: o amor se revelando já no primeiro encontro, antes mesmo de trocar meia dúzia de palavras. É claro que não fui correspondido em todas as ocasiões em que isso aconteceu. Mas nenhum desses vislumbres de um futuro feliz me decepcionou. Vivi belas histórias. Umas breves, outras duradouras. Todas igualmente intensas. E entre o encantamento inicial e a consumação do sonho de amor, surgiam as mesmas expectativas, regadas a sessões de cinema, jantares, telefonemas e muita conversa. Até a chegada do tão esperado dia em que a pessoa amada e desejada está ali, ao alcance dos lábios. De tanta felicidade, é impossível deixar de pensar se aquilo está realmente acontecendo. E é verdade: a gente se sente um rei, um deus. E desde aquele instante (até sempre - afinal, toda história deixa marcas), vejo-me como um privilegiado por experimentar e compartilhar sentimentos que me fizeram (e continuam me fazendo) crescer e ser o homem que sou... com defeitos ainda, mas dono de uma vontade inesgotável de aprender, acertar e amar até o fim.

agosto 20, 2008

Porque era ela, porque era eu



"Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu, por que eu e ela?

(...)

Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela, porque era eu"
(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Atire a primeira pedra quem disser que não... Mas todo mundo - homem ou mulher, jovem ou adulto, brasileiro, chinês ou neozenlandês - quer viver um grande amor. E na busca da preciosa metade, quantos tropeços e desilusões! Daí então, dá-lhe vontade de entender e encontrar a fórmula correta, o passo-a-passo mágico para construir um cantinho de tranqüilidade, prazer e alegria. Quais são os ingredientes necessários e suas medidas exatas para fazer crescer aquele sentimento inicial, transformando-o no mais delicioso e desejado "bem-casado"? Se a entrega é sempre a mesma, se o brilho nos olhos é igual, se a taquicardia durante a espera nos primeiros encontros é idêntica, por que umas uniões dão certo e outras não? Por mais que saibamos que dedicação e a disposição são imprescindíveis para os que querem permanecer juntos, a explicação para a felicidade não parece estar atrelada a raciocínios lógicos e estratégias precisas. Sou defensor ferrenho de que as atitudes e posturas diante do ser amado ditam o rumo do caminho que o casal vai trilhar. Mas às vezes, alguma coisa me diz que o acaso também mete ali suas mãos, como se tudo tivesse perfeito porque ele juntou as peças certas na hora certa: John com sua Yoko, Jorge com sua Zélia, Sansão com sua Dalila, Dilermando com sua Saninha, Dorival com sua Stella...

julho 18, 2008

Beatriz



“Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz...”
(Chico + Edu Lobo > 1982)


HISTÓRICO: Não bastassem todo o lirismo da letra ou a curiosidade (?) das palavras "céu" e "chão" estarem, respectivamente, nas notas mais alta e baixa da canção, "Beatriz" ainda tem esses três brilhantes versos que traduzem (tão bem) o medo de perder a pessoa amada. Quer ver? Levante o dedo quem já não se inquietou com a duração do "para sempre". E não é pela fatalidade da sentença, não. É exatamente por saber que a eternidade pode acabar na próxima esquina, naquele olhar, numa festa, num tropeço. Mas... e se houvesse uma maneira de prever as fatalidades para evitar que o final jamais chegasse? Decifrar as linhas da mão como o mapa do tesouro mais valioso. Ver o futuro nas cartas, nos astros, no fundo do tacho, na borra de café, no pêndulo, nos búzios... Filas de ciganas, cartomantes, tarólogos, videntes e afins para garantir a integridade de dois corações, mantendo-os protegidos das dores, cacos e estilhaços dos relacionamentos desfeitos, tantos e tão próximos, que faz a felicidade parecer uma exceção. Será que é perigoso ser feliz? Pelo sim ou pelo não, a saída é seguir amando, hoje mais que ontem, acreditando que novos parágrafos se abrirão para as histórias de amor.

junho 01, 2008

Viver do amor



"Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar e sangrar
E suar como um trabalhador.

(...)

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
Se precaver
Que o amor não é um vício
Amar é um sacrifício
Amar é um sacerdócio
À luz do abajur

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
Se precaver
Amar não é um vício
O amor é um nobre ofício
O amor é um bom negócio."
(Chico > 1977/1978/1985)

HISTÓRICO: Às vezes, sou solidão e o amor é festa. Às vezes, quero travesseiro e edredom e o amor sugere uma orgia. Às vezes, peço sashimi e saquê e o amor prepara arroz-com-feijão. Às vezes, tenho cansaço e o amor transborda euforia. Às vezes, sou mansidão e o amor é tempestade. Às vezes, viro pedra e o amor é balão. Às vezes, dou risadas e o amor derrama lágrimas. Às vezes, sou jiló e o amor é mel. Às vezes, grito e o amor silencia. Às vezes, sinto medo e o amor é pura certeza. Às vezes, sou chama e o amor é vento. Eu, vice. E o amor, versa. É que, na verdade, o amor não existe (calma!) da maneira como fomos ensinados a desejá-lo: perfeito, sereno, harmonioso, inteiro. Quem quiser encontrar um assim vai correr o risco de caminhar sozinho a vida toda, sem saber que gostoso mesmo é o que ele tem de inacabado, imperfeito, inquieto, sempre à espera de ser construído e moldado pelas mãos que decidiram capturá-lo. O amor não é igual para todo mundo. Os sintomas podem ser parecidos sim, porém as causas são sempre distintas. Não há fórmula a ser seguida. O amor não é receita de bolo, ainda que alguns ingredientes - como respeito, atenção, dedicação e sinceridade - estejam sempre presentes nas histórias felizes. No final das contas, amar é aceitar o desafio de conviver com as diferenças para enaltecer um ponto comum: a maravilha de compartilhar a presença do outro. Pode não ser fácil. No entanto, é isso que leva à renovação, ao encantamento e ao riso largo.

PS: Essa canção foi composta, primeiramente, para o teatro, integrando a trilha de “Ópera do Malandro”. Em 1985, quando a peça virou filme, alguns versos foram alterados. A versão acima é a do cinema.

maio 14, 2008

Ciranda da bailarina



para T.

"Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem."
(Chico + Edu Lobo > 1982)

HISTÓRICO: Ela viera para integrar a equipe de redação em que eu trabalhava. Foi assim que a conheci. Chegava com fama de competente, organizada, linha-dura... Parecia uma concorrência desleal para quem, como eu, estava em início de carreira. Mas bastaram alguns dias (ou teriam sido horas?) para perceber que não era somente aquilo. Além de tudo o que disseram, descobri uma mulher inteligente, sensível, compreensiva, companheira, bem-humorada, batalhadora. Em pouco tempo, tornou-se minha "amiga para sempre", alguém para dividir lanches e confidências, sessões de cinema e sonhos, triunfos e lágrimas. Foi ela quem me "aplicou" a primeira trufa de chocolate (sabe Deus como pudera viver sem aquilo até então!). Foi ela, também, quem me chamou a atenção para "Both sides, now", da trilha sonora do filme "Simplesmente amor", a que assistimos juntos (e desde então fico doido com tudo o que ouço da Joni Mitchell). Foi ela ainda quem, tantas vezes, me mostrou o talento que eu julgava perdido. E, por fim, foi ela quem me influenciou a entrar no universo dos blogs. São tantos os bons momentos juntos que eu poderia escrever por horas aqui. O fato é que, ao longo de todos esses anos, fui acumulando motivos e motivos para amar essa mulher cada dia mais. Ela é a minha bailarina do Grande Circo Místico do Chico e do Edu: PERFEITA! E não porque não possua máculas, não cometa erros, não tenha dúvidas. Mas por não deixar que nada disso mude a essência do seu amor, do seu carinho, do seu bom senso, da sua verdade.

março 17, 2008

Ode aos ratos



“Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão.”(Chico + Edu Lobo > 2001)

HISTÓRICO: Na última sexta-feira, fui ao Teatro Fecap assistir ao show de gravação do dvd “Noites de gala, samba na rua” com a Mônica Salmaso e o grupo Pau Brasil, cujo repertório era baseado no cd homônimo com canções do Chico Buarque. Desnecessário dizer que a apresentação foi de puro deleite, a começar pela escolha da casa: o Teatro Fecap é o meu lugar-cultural preferido de São Paulo por combinar bons espetáculos, preços acessíveis, espaço aconchegante e excelente acústica. Para completar, tinha o set list buarqueano na voz de uma grande intérprete brasileira, acompanhada por músicos de uma sonoridade criativa e inspiradíssima (difícil apontar se o que mais surpreende é o violão do Paulo Belinatte, os sopros do Teco Cardoso, a bateria do Ricardo Mosca, o contrabaixo do Rodolfo Stroeter ou o piano do Nelson Ayres). Envolvido nesse sonho em forma de canção, fui surpreendido, lá pela metade do espetáculo, com uma historiazinha que revela o lado bem-humorado (e pouco conhecido) do nosso letrista maior. Segundo a cantora, quando o Chico estava compondo “Ode aos ratos” para a peça “Cambaio”, ligou para o Paulo Vanzolini – que, além de músico consagrado por sucessos como “Ronda” e “Volta por cima”, é um dos maiores biólogos do Brasil. A dúvida era sobre algumas características do animal roedor e o diálogo teria sido mais ou menos assim:
- “Vanzolini, estou escrevendo uma letra sobre ratos e queria saber como eles são. O nariz é mole? Frio ou quentinho? E a pelagem?”, indagou o carioca.
- “Ô, Chico, você mente tanto sobre mulher, por que não inventa qualquer coisa também sobre os ratos?”, curtiu o biólogo.
- “Pô, Vanzolini, é que pelos ratos eu tenho o maior respeito”, arrematou Chico às gargalhadas.

fevereiro 29, 2008

As atrizes


“Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente
Represente muito pra mim”

(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Não é novidade para (quase) ninguém a minha paixão pelo cinema. Muita gente afirma saber de quem é a "culpa". É que quando nasci, meu pai - para melhorar o orçamento da família - fazia um bico como porteiro do Cine Santa Helena, no interior de Goiás. E com a entrada franca, comecei a apreciar a sétima arte ainda bebê, ora no colo da mamãe, ora nos braços do titio... Sempre tinha alguém me levando para aquela sala mágica. Reza a lenda que, numa dessas sessões, entrei em pânico ao ver um personagem "apontando a espingarda para a platéia". Eu tinha menos de 5 anos e o filme era algum do roteirista, ator, produtor e diretor Amácio Mazzaropi.
A verdade é que, desde então, filmes e mais filmes vêm pontuando minha vida. Criança ainda, lembro-me perfeitamente de ter assistido naquele mesmo cinema (com assentos de madeira, música americana antes do início da sessão e 3 sonoras badaladas de sino que indicavam o começo iminente da projeção) a "Branca de Neve e os sete anões", o primeiro longa de animação dos Estúdios Disney e da história.
Já adolescente, vi o musical "Grease - Nos tempos da brilhantina", cujas músicas eu já sabia de cor, de tanto ouvir na vitrola da casa de uma vizinha. Naquela época, a exibição desse filme foi uma exceção, uma vez que a grade de programação do Cine Santa Helena só contemplava produções de artes marciais e pornôs. Alguns anos mais tarde, o final fatídico: o cinema da minha infância foi fechado e virou uma loja de eletroeletrônicos.
Em 1983, aos 16 anos, quando fui morar em Minas Gerais, outros dois filmes entraram para a minha história e - ironicamente - por não terem sido assistidos (o que fiz alguns mais tarde). Tinha combinado com uma amiga de vermos "Amor sem fim", do Franco Zefirelli. Chegamos atrasados e - sei lá como e porquê - entramos numa sessão que já havia começado e mostrava cenas muito quentes. Imaginávamos que aquilo deveria ser o trailer de algum outro filme. A sequência tórrida continuava. Inocentes que éramos, deixamos a sala correndo e chegamos à calçada morrendo de rir. O filme era "Corpos ardentes", do Lawrence Kasdan, com a Kathleen Turner e o William Hurt.
Um ano depois, mudava-me para Goiânia para cursar Medicina. A primeira película a que assisti lá - e da qual ainda gosto sobremaneira - foi "Amadeus", do Milos Forman, no saudoso Cine Capri (que no final dos anos 1990 virou um templo religioso). E a consciência do amor pelo cinema manifestou-se então. Lembro-me de ter voltado para casa, por volta da meia-noite, de ônibus, e completamente nas nuvens.
Em 1991, já fazendo a faculdade de Jornalismo, numa aula de Língua Portuguesa, o tema de análise e discussão foi o maravilhoso "A festa de Babette", do Gabriel Axel, cuja história de perseguição, resignação e transformação passou a ser uma das minhas preferidas de todos os tempos. Até hoje me encanto com esse filme (obrigado, Lia).
Durante o curso , envolvi-me numa iniciativa para movimentar as tardes do Instituto de Ciências Humanas e Letras I (ICHL-I, atual Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia/Facomb), da Universidade Federal de Goiás, que durante as manhãs estava cheio, com a presença dos alunos da área de Comunicação Social, mas que à tarde ficava às moscas.
Criamos, assim, o Projeto Abóbora que, após as 12 badaladas do meio-dia, reunia semanalmente estudantes de toda a universidade em uma das salas vazias do ICHL-I para assistir a um filme e participar, na sequência, de um debate. Os títulos exibidos eram escolhidos pelos palestrantes convidados. Eles eram artistas, médicos, psicólogos, antropólogos, juristas, sociólogos, jornalistas e educadores da sociedade goianiense. As discussões tinham o tema principal de cada produção como fio condutor: as diferenças culturais em "Dersu Uzala", do Akira Kurosawa; os distúrbios psicóticos em "Louca obsessão", do Rob Reiner; o desejo e a apatia em "O anjo exterminador", do Luís Buñuel; e a Aids em "Meu querido companheiro", do Norman René.
Nessa mesma época (ou pouco tempo depois), um outro momento de grandes descobertas foi proporcionado pelo Cine Cultura, uma pequena sala de exibição mantida pelo Governo de Goiás no centro de Goiânia, cuja programação foi responsável por me apresentar, em versão tela grande, a grandes diretores, antes apreciados (ou não) apenas no vídeo. Cito alguns, já que a memória não me permite mais: Pier Paolo Pasolini, com "Saló"; James Ivory, com "Maurice"; Federico Fellini, com "Amarcord"; Woody Allen, com "Simplesmente Alice"; Emir Kusturica, com "Underground - Mentiras de guerra"; François Truffaut, com "Domicílio conjugal"; Luís Buñuel, com "A bela da tarde"; Mohsen Makhmalbaf, com "Gabbeh"; Wim Wenders, com "Asas do desejo"; Peter Greenaway, com "Afogando em números"; Robert Altman, com "Além da terapia"; Stephen Frears, com "O amor não tem sexo"; e Theo Angelopoulos, com "Paisagem na neblina".
Pra finalizar, vou citar um filme a que assisti ao lado de uma pessoa muito importante pra mim e que, consequentemente, é sempre lembrado: "A excêntrica família de Antônia", produção européia vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1996. De lá para cá, muitas mostras e sessões depois, a invenção dos irmãos Lumiere segue emocionando e povoando minha mente (como pode ser conferido no Cine Demais) com idéias e sonhos, embalados por inúmeras canções memoráveis e personificados nos olhares e nas falas de tantos atores e atrizes que - de tão vistos - já são de casa.

dezembro 21, 2007

Construção



"Amou daquela vez como se fosse a última
(...)
Beijou sua mulher como se fosse a única
(...)
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo..."
(Chico > 1971)

HISTÓRICO: Esta é outra daquelas canções que ouvi - pela primeira vez - lá pelos idos de 1979. Parte da trilha de uma coletânea que trazia também "Geni e o zepelim" (veja post do dia 18 de março de 2006), "Construção" me fascinou, imediatamente, por causa do jogo de palavras, em que versos praticamente idênticos diferenciavam-se em função dos últimos vocábulos, todos proparoxítonos. Aquilo, para um garoto de 13 anos, era como decifrar um mapa do tesouro. Hoje, continuo encantado com a estrutura dessa canção e - mais ainda - com a verdade urgente de alguns dos seus versos. De que outra forma deveríamos amar, se não como se fosse a última vez? Porque o amor é ardiloso e exige dedicação, ardor e entrega para crescer plenamente. De que outra maneira beijar a pessoa amada, se não como se ela fosse a única? Porque o objeto (ou seria o sujeito?) do amor pede devoção e cumplicidade, sob o risco de sentirmos na boca um travo de amargor, rancor e dor. De que outro jeito descansar, se não como um príncipe? Porque nós somos os soberanos das inúmeras realizações diárias que executamos em casa, na escola, na rua ou no trabalho. E se é arroz-e-feijão que se tem para comer, por que não fazê-lo como se fosse o máximo? Não, não é questão de resignar-se com o pouco, mas de ser grato pelo que a vida está oferecendo naquele momento. Festejar a abundância, qualquer um faz. Difícil é enxergar algo onde os outros vêem nada. Tudo isso parece utopia? Pois para mim, são elementos essenciais do prólogo de uma história de vida feliz, que eu procuro escrever todos os dias, uma linha de cada vez. É claro que, em alguns momentos, monossílabos, hiatos, verbos de ligação e pontos finais imperam em parágrafos frios e curtos. Mas há também os capítulos longos, repletos de ditongos, contrações, objetos diretos e indiretos, apostos, parênteses e reticências. Se o final for feliz, melhor. Porque o que interessa mesmo é que o conteúdo dessa escrita seja rico em detalhes e emoções.

novembro 26, 2007

Rosa-dos-ventos


"A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar."
(Chico > 1969)


HISTÓRICO: E no final do mês de outubro, percebi que as coisas não andavam bem. Estranhamente, não havia mais prazer em fazer o que eu mais gostava. Tomar uma decisão, era mais que necessário... Na verdade, vital. É claro que a grana pesa nessas horas. Mas não tem nada que pague a minha paz, o meu sono completo, o meu sorriso largo pela manhã. Com o passar dos anos, aprendi que fugir dos impasses só torna o momento de decidir mais complicado e doloroso. Sem falar da desolação de olhar para trás e ver tantas perdas espalhadas por todos os lados. Quantas vezes me peguei pensando que, daqui a alguns anos, tudo estaria diferente, melhor? No entanto, ninguém me garante que eu terei esse tempo para aguardar e conferir. Não que eu ache que se deva fazer tudo-ao-mesmo-tempo-agora, mas é importante estar consciente de que o momento que se tem para encontrar a felicidade é hoje... Eu sei que as mudanças e rupturas também fazem sofrer. Mas prefiro esse movimento incerto que vai me levar - de uma maneira ou de outra - para uma história diferente a ficar parado, esperando pelo que talvez não venha nunca. Que se faça a tormenta agora! Romper com o que me deixa triste já é meio caminho andado rumo ao que vai me fazer feliz. E viver é exatamente essa busca.

julho 16, 2007

O meu amor



"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes..."
(Chico > 1977/1978)

HISTÓRICO: Está certo que as marcas de amor têm lá seu charme. Mordidinhas na nuca, unhadas nas costas, chupão no pescoço... quem é que não os teve? São detalhes que registram a temperatura do prazer - e que, na manhã seguinte, costumam testar a criatividade no vestuário e nos argumentos... No entanto, definitivamente, não são essas marcas as que mais importam na vida a dois e, sim, aquelas que não passam com o tempo: as lembranças das delicadezas, dos cuidados, das surpresas, das loucuras, das fantasias, das flores recebidas, do abraço gostoso no meio da noite só para se certificar de que tudo aquilo não foi um sonho, do café na cama, do bilhete no espelho do banheiro, da camiseta usada e perfumada deixada sob o travesseiro para os dias de ausência, do jantar preparado com os ingredientes de uma geladeira vazia e um coração cheio de ternura, das risadas por nada, da tranqüilidade do sono compartilhado, das manifestações de carinho e tesão nos lugares menos apropriados, da pipoca e do refri divididos durante aquela sessão de cinema tão esperada, da canção que - apenas sussurada - traz de volta aquele encontro, aquele beijo, aquela saudade, aquele dia. É esse universo de sutilezas que fica para sempre, mesmo quando os amantes já não se vêem, nem se tocam.
PS: Em agosto de 2006, outros versos dessa mesma canção já haviam me inspirado a escrever aqui.

junho 04, 2007

Todo o sentimento



"Prometo te querer
Até o amor cair doente, doente

(...)

Depois te perder
Te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado
Ao lado teu."
(Chico + Cristóvão Bastos > 1987)

HISTÓRICO: Por um desses desentendimentos bobos que, às vezes, vêm do nada, o silêncio tinha se instalado entre o casal, naquele quarto, onde as luzes estavam apagadas mas a consciência, acesa. Eles sempre acharam estranho dormir ao lado de quem se ama sem poder dar um beijo de boa-noite: cama é território sagrado, lugar de confissões e entregas, de loucura e lassidão, mas também de paz. No entanto, a primeira palavra não partia de ninguém. Ele respirou fundo e ensaiou um abraço. Parou. Tão perto e tão longe. O tempo passava. Enfim, o abraço se consolidou. Sorriu. Para a nuca dela, é verdade. A felicidade pode se manifestar nos detalhes. Esperou mais uns minutos. Arriscou um beijo. Seus lábios tocando a pele suave e sensível atrás daquela orelha. Sem dizer nada, perdeu-se no corpo dela e o amor se fez devagar e urgentemente, uma faísca que poderia ser apagada ao sopro da primeira palavra - que não veio. Nenhuma palavra até o fim. Corpos cansados, respiração ofegante, mãos apertadas. Palavras pra quê? Beijou sua boca ternamente, sem dizer nada, nem o "te amo" que estava na ponta da língua. Dormiram. Noite tranqüila de corpos entrelaçados. Foi acordado pelo doce bom-dia dos lábios amados. Como se o silêncio não tivesse existido, como se tudo aquilo pudesse ter sido um sonho. Não falaram sobre o ocorrido, nem naquele dia, nem depois: a magia daqueles instantes não seria revelada. Apenas colocaram o sorriso no rosto e não o tiraram mais.

fevereiro 28, 2007

Desencontro



"A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal

(...)

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final

(...)

Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu."
(Chico > 1965)

HISTÓRICO: Esquecer um grande amor não é das tarefas mais fáceis. E quando a história acaba "sem ponto final", aí é missão praticamente impossível. Porque as lembranças voltam fortes a todo momento... como se pudessem unir o que não se deseja ver separado ou para tentar elucidar o que ficou inexplicado. Por mais doloroso que seja aceitar, a atitude mais digna de quem já não sente o amor eterno que sempre jurou é dizer com todas as letras: "a-c-a-b-o-u". Se puder (ou quiser) falar o porquê, melhor; se não, é obrigação deixar bem claro que é o fim, sem as reticências e esperanças que - encaradas como paliativos no processo de esquecimento - são, na verdade, uma armadilha a prender a parte abandonada no sonho da volta. Terminar uma união requer o mesmo cuidado que dedicamos ao seu começo. Não é exatamente o desfecho que tanto nos interessa e nos faz virar, avidamente, as páginas de um romance? No mundo real, não me parece que deva ser diferente: o fim tem a mesma importância.

PS: Ouvi "Desencontro" pela primeira vez há 3 ou 4 anos, num show da Jussara Silveira que integrava o Projeto Pixinguinha. Fiquei verdadeiramente encantado com a canção e com sua intérprete, também desconhecida para mim. Desde então, não parei mais de ouvir as duas.

janeiro 25, 2007

Qualquer amor




"Qualquer amor
Me satisfaz

(...)

Qualquer hora, qualquer cheiro
Qualquer boca, qualquer peito
Qualquer jeito de prazer
Qualquer prazer é pouco

(...)

Qualquer amor
Eu corro atrás
Qualquer calor
Eu quero mais..."
(Chico + Francis Hime > 1979)

HISTÓRICO: Deve ter sido por volta do final dos anos 70 que eu a conheci. Ela era uma menina da roça, daquelas brejeiras. Cabelos encaracolados e negros, corpo moreno coberto por um vestido estampado de algodão, na altura dos joelhos, que ela prendia com as mãos entre as coxas quando começava a sorrir e a girar. Abaixava a cabeça como se estivesse envergonhada, mas quando a levantava outra vez, lá estava ela sorrindo ainda... e girando, girando, girando. E os seus olhos irradiavam uma alegria esfuziante de quem está descobrindo o mundo (dos sentimentos, inclusive). Hoje, chego à conclusão de que, poucas vezes na vida, vi sorriso ou olhar tão encantadores. Éramos garotos, então. Mas a revolução dos meus hormônios transformou aquele jeito de olhar e sorrir na certidão de nascimento de uma femme fatale, senhora dos prazeres e caprichos que povoavam minha imaginação, mulher que descobriria que eu era - coitadinho! - apenas um menino a sonhar apavorado com as delícias que ela poderia me oferecer. Há tempos não nos vemos. Nos últimos 20 anos, sequer pensei nela, por um segundo que fosse. No entanto, no começo da semana passada, assim do nada, seu sorriso ecoou na noite escura do meu quarto e meu pensamento se pôs a girar, girar, girar...

dezembro 27, 2006

Apesar de você


"... Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar..."

(Chico > 1970)


HISTÓRICO: Eu não poderia terminar o ano sem escrever umas palavrinhas... Sei que 2006 teve muitos percalços, frustrações comuns (a todos nós, brasileiros, que lutamos por um país mais justo e fomos soterrados por violência, corrupção e impunidade) e outras mais particulares (um amor que não vingou, o emprego que se foi, aquela viagem adiada...), que fizeram com que o balanço anual fechasse no vermelho. Mas espera aí, será que não estamos usando dois pesos e duas medidas para aferir os altos e baixos da vida? Já reparou que uma ou duas coisas ruins que acontecem acabam por anular aqueles outros três ou quatro momentos espetaculares que vivemos antes? É certo que a tristeza costuma ficar mais tempo do que devia na nossa casa, emperrando as janelas e fechando a porta, como se quisesse impedir que o sol nos inundasse de luz e calor. Mas é preciso admitir também que um instante(zinho) só de alegria é suficiente para encher a alma de esperanças e nos fazer abrir os braços e o coração para a vida que segue lá fora. Por isso, estou disposto a valorizar cada fagulha de riso e felicidade para transformá-las no combustível que vai queimar meus momentos maus. Não, isso não é um plano para fugir da tristeza. De jeito nenhum! Até porque não é tão simples assim limpar suas cinzas. Mas quero que a menor das alegrias seja capaz de me fazer enxergar que existe um mundo de descobertas e possibilidades à minha espera na próxima rua, no próximo abraço, no próximo olá, no próximo passo, no próximo beijo, na próxima hora, no próximo ano. Porque apesar dos pesares, amanhã há de ser outro dia.

PS: A todos vocês que passaram pelo "Buarqueando" para dividir comigo um minutinho do seu tempo, meu muito obrigado. Escrever é maravilhoso; ser lido, também. Mas poder compartilhar momentos e trocar idéias é infinitamente melhor. E com certeza, é uma das minhas fontes de alegria. Feliz Ano Novo, pessoal. Espero vocês aqui em 2007.

novembro 15, 2006

Mulheres de Atenas



“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

(...)

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas...”

(Chico + Augusto Boal > 1976)

HISTÓRICO: Fui cortar o cabelo no último sábado e – enquanto esperava a minha vez – peguei uma revista que estava dando sopa por lá. Era a publicação masculina de maior circulação e prestígio no Brasil, edição 375 com aquelas 3 comissárias de bordo na capa. Lá pelo meio do exemplar, me deparei com uma lista dos 50 melhores discos da música popular brasileira. Bem... gosto é gosto, lista é lista e há que se respeitar, mas fiquei impressionado por não encontrar um trabalho do Chico ali. E sabe o que aconteceu? Comecei a pensar qual dos cds dele eu indicaria para integrar aquele elenco (desfalcado). Sabia que estava me metendo numa enrascada: já é noite de quarta-feira e continuo imprevisivelmente indeciso. Por causa daquelas canções que eu não quero deixar de fora, vários discos estão emparelhados na fila de espera para ganhar o lugar de representante buarqueano. Mas olha só o tamanho da briga que se instalou sobre minhas emoções: até o momento de publicar esse post, 9 discos seguiam empatados na primeira colocação. Escolhi “Meus caros amigos, 1976”, mas poderia ser qualquer um dos outros candidatos, que enumero aqui pelo ano de lançamento para que “a justiça seja feita” e eu não me remoa de arrependimento amanhã ou depois: 1968, 1970, 1971, 1978, 1980, 1981, 1987 e 1993. Em tempo: escolher a canção para ilustrar esse texto também não foi tarefa fácil. Mas como algumas já estão no blog, sofri menos.

outubro 19, 2006

Sonhos sonhos são



“Negras nuvens
Mordes meu ombro em plena turbulência
A aeromoça nervosa pede calma
Aliso teus seios e toco
O exaltado coração
Então despes a luva pra eu ler-te a mão
E não tem linhas tua palma

(...)

Sei que é sonho
Não porque da varanda atiro pérolas
E a legião de famintos se engalfinha
Não porque voa nosso jato
Roçando catedrais
Mas porque na verdade não me queres mais
Aliás, nunca na vida foste minha.”
(Chico > 1998)


HISTÓRICO: Não chega a ser medo, mas – levante a mão – quem não fica um pouco apreensivo ao voar, principalmente depois de incidentes como aquele envolvendo Boeing e Legacy na rota Brasília-Manaus. Às vésperas do Dia da Criança, ganhei os céus rumo a Sampa. Ia feliz, tanto pelas companhias que tinha ao meu lado quanto por aquelas que ganharia assim que estivesse em terra firme. Confesso que - na primeira meia hora - pensei várias vezes em tragédias aéreas... Mas foi só durante os 30 minutos iniciais. É que daquela altura da viagem até o pouso em Congonhas, o tempo voou. Não porque eu tenha dormido e sonhado, mas porque encontrei uma rádio com programação exclusivamente buarqueana: os blocos começavam com um texto sobre a obra do Chico, seguido por quatro canções do músico – a primeira cantada por ele mesmo e as outras por diferentes intérpretes. E com uma programação assim, lírica e melodicamente tão rica e estimada, os pesadelos se desintegraram no ar.

setembro 27, 2006

Subúrbio



"Lá não tem brisa
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa

(...)

Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas..."
(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Ano de eleição é sempre a mesma coisa. Ontem à noite, comecei a assistir ao debate na televisão entre os candidatos a governador. Por que será que essa visão que eles demonstram ter agora se perde durante os 4 anos seguintes? Observei ali distintos cavalheiros conscientes das mazelas sociais, prometendo transformações e respeito para um povo (ainda) crente. Se é assim, como explicar que as filas nos hospitais continuem infinitas e tanta gente continue sem um atendimento médico decente? Que o esgoto corra a céu aberto em muitos cantos do Brasil? Onde estão os empregos, as escolas, as creches, a moradia, o transporte urbano digno e eficiente? Cadê os investimentos em educação, segurança, cultura e lazer? Ao ouvi-los, tive a impressão de estar diante de homens que tivessem acabado de descobrir o Brasil de verdade, de carne-e-osso-e-fome-e-dor, uma nação muito distinta daquele paraíso tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza... tamanhas eram suas revoltas e indignação. Desliguei a tv após o primeiro bloco. Seus achados e constatações eram redundantes para mim, de tão conhecidos (e suas promessas, idem). É naquele mundo invisível que eles e muitos outros só vêem quando lhes é conveniente que eu vivo e faço a minha parte para torná-lo melhor.

setembro 08, 2006

Olha Maria



"Mas hoje, Maria
Pra minha surpresa
Pra minha tristeza
Precisas partir
Parte, Maria
Que estás tão bonita
Que estás tão aflita
Pra me abandonar

(...)

Vai, alegria
Que a vida, Maria
Não passa de um dia
Não vou te prender
Corre, Maria
Que a vida não espera."
(Chico + Tom Jobim + Vinícius de Moraes > 1971)

HISTÓRICO: Quem já viveu um grande amor sabe o quão doloroso é seu fim. E muitas vezes, fazemos com que esse sofrimento se torne ainda maior. É quando queremos entender as razões, justamente com um sentimento que passa tão longe do racional, da lógica... Durante muitos anos, coloquei-me diante dessa situação como se fosse um estudioso que quisesse descobrir o que se passou, como foi que tudo aconteceu, quando o castelo começou a ruir, quais os sinais que não percebi, onde foi parar tudo que sonhamos, por que teve que ser assim... Tantas perguntas e (quase) nenhuma resposta deixavam como saldo uma dor incomodando por meses e meses, intensa, implacável, cruel. Mas o tempo - esse sábio aliado dos mortais - me ensinou que o amor quando acaba... apenas acaba e p(r)onto! Não há que se interrogar o outro, muito menos cobrar qualquer coisa. Em nenhum momento, ele nos acena com promessas de eternidade. Por isso, quando decide partir, não tem como prendê-lo. Os que tentam fazê-lo, encontram mais lamentos, desconfiança, agressões, infelicidade... E aqueles que afirmam ter conseguido é porque já não enxergam o que realmente os envolve e tomam por amor uma situação apaziguadora, respeitosa e insípida - que até pode possibilitar uma convivência harmoniosa, mas sem os arroubos de desejo, calor, cumplicidade e alegria que brotam da relação dos verdadeiros amantes. E quer saber? Se ainda julgamos amar a pessoa que está nos abandonando, o mais sensato é deixá-la ir embora e feliz - como a Maria desta canção. Afinal, a tristeza de um já é mais que suficiente, não é mesmo?

agosto 28, 2006

Deixe a menina



"Não é por estar na sua presença
Meu prezado rapaz
Mas você vai mal
Mas vai mal demais
São dez horas, o samba tá quente
Deixe a morena contente
Deixe a menina sambar em paz."
(Chico > 1980)

HISTÓRICO: Houve um tempo em que o amor que eu conhecia eram os de novela ou cinema. Aquela coisa linda mas assustadoramente cheia de obstáculos para se consumar. Dava até medo. Depois, fui aprendendo que ele não tinha que rimar com dor... quase nunca, desde que algumas regras fossem obedecidas. São muitos os ingredientes para levar uma relação ao sucesso. E no "modo de fazer" de todas as receitas de felicidade, uma orientação está sempre presente: amar requer liberdade. O ciúme - que traz consigo a falsa premissa de proteger o amor - acaba por matá-lo, ao não entender que o barzinho e a boate com os amigos ou o cinema sozinho não representam ameaça alguma. Porque é assim - livre - que o outro traz sorrisos, idéias, frescor, animação, tesão e novidades para a relação. Na verdade, as armadilhas que podem minar uma história de amor não estão na rua, mas dentro de casa mesmo.

agosto 08, 2006

O meu amor



"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai..."(Chico > 1977/1978)

HISTÓRICO: A vontade de encontrar e viver um grande amor parece ser um consenso. Mas é comum, também, ouvir piadinhas para desqualificar o prazer sexual de casais com relacionamentos duradouros. "O mesmo doce, todo dia, enjoa", dizem uns. "Iiiih, viraram irmãos", ironizam outros. Sempre desconfiei desses comentários. Sei dos desejos e do tesão que as novas conquistas proporcionam, porque já provei deles. Mas talvez o que muitos não saibam - exatamente por não ter vivenciado - é o quanto a entrega ao amor pode renovar o sexo. Amar e saber-se amado parece produzir uma química rejuvenescedora: a felicidade e o prazer do outro acendem os amantes, fazendo queimar os lábios, incendiar os lençóis e... serenar o sono. E poucas coisas podem ser mais excitantes do que descobrir o novo na pessoa que julgamos conhecer tanto e há muito tempo.

agosto 04, 2006

Angélica



"Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar."
(Chico + Miltinho > 1977)

HISTÓRICO: Sempre gostei muito dessa música. Mas só agora - com a estréia do filme do Sérgio Rezende - fiquei sabendo que tinha sido composta para Zuzu Angel, a estilista brasileira, pouco depois de sua morte. Então, o que já era belo ganhou uma dimensão ainda maior: de tristeza, de verdade, de encanto... Não quero assim dizer que, por ter os pés na realidade, uma canção ou um filme sejam melhores que seus congêneres da ficção; não é isso. Devo confessar, no entanto, que - na maioria das vezes - sinto-me mais tocado ao saber das referências reais de que a arte se apoderou para criar tantos sons e imagens maravilhosos.

julho 14, 2006

O velho Francisco



"Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou

(...)

Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou."
(Chico > 1987)


HISTÓRICO: O tempo passa e leva (quase) tudo: amores, amigos, saúde, memória... Mas vez ou outra, ele parece dar uma trégua. Ou somos nós que conseguimos driblá-lo, fazendo a vida voltar as horas? No início de julho, isso aconteceu comigo. Por ocasião das minhas férias, resolvi aproveitar a primeira semana para levar meus pais - que moram no interior - aos seus médicos. Vieram para minha casa em Goiânia e - de repente - durante 6 dias, a magia se fez. Como não moro com eles há mais de 20 anos, nossos momentos (os três juntinhos mesmo) são raros: na casa deles, nem sempre é possível usufruir da presença do meu pai - que continua na ativa - em tempo integral. E nunca tinha dado certo dos dois virem na mesma ocasião. E a não ser para ir ao médico, não vêm para a "cidade grande" de jeito nenhum. O que sei é que - entre a maratona de consultas e exames - vivemos momentos maravilhosos. Saudade daquela intimidade, daquela rotina de café-almoço-e-jantar, daquelas risadas... Me senti um garotinho outra vez, ainda que em muitos momentos - por estarem no meu universo - pudesse parecer que eles fossem os meus filhos. Receber amor é bom demais, poder retribuir é uma bênção!

julho 05, 2006

Tanto amar



"Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

(...)

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro."(Chico > 1981)

HISTÓRICO: Com esta música, aconteceu uma paixão à primeira audição. O tempo foi passando e eu gostando mais, percebendo melhor os significados. Em "Tanto amar", Chico apresenta uma descrição soberba da alma feminina a partir da análise do olhar: se um olho faz isso, o outro faz aquilo. Ainda que os versos "Amo tanto e de tanto amar" soem lindos e colem nos ouvidos, são as estrofes acima que me ganharam de vez. Na primeira, ele retrata a mulher amada, explorando a dualidade dos seus sentimentos: tem a força para encarar a parada e a emoção à flor da pele desaguando em lágrimas. Já na outra estrofe, a união das diferenças mostra-se poderosa: as janelas se convertem em espelhos. O homem que consegue juntar e entender o fogo e a água daqueles olhos vai enxergar a si mesmo diante de um grande dilema: arriscar-se nas ondas do amor ou ficar seguro - e só - em terra firme. Um conselho? Amar vale a pena, vale o naufrágio.


PS: Estou de férias desde sexta-feira. Por isso, as atualizações por aqui poderão ficar mais remotas. Tentarei não abandonar o blog durante todo o mês. Mas não prometo nada. Inté!

junho 28, 2006

Tanto mar



"Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

(...)

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar."
(Chico > 1975)

HISTÓRICO: No final de 1973, o povo português manifestou seu descontentamento contra o fascismo, a Guerra Colonial (13 anos de combate às colônias que buscavam independência) e a derrocada econômica, agitando o país com greves e intensas manifestações em várias frentes. Até que no dia 25 de abril de 1974, estimulado pela coragem e vontade das massas, um grupo de oficiais de média patente do exército enfrentou o governo e pôs fim a 48 anos de ditadura. Para comemorar, a população tomou as ruas, dessa vez para abraçar seus jovens soldados e enfeitar os fuzis com cravos. Por aqui, Chico compôs "Tanto mar", cuja melodia é - sem sombra de dúvida - uma das que mais me encantam. Começa lentinha e pungente, mas termina célere e alegre. E não poderia ser diferente: se a canção exaltava a Revolução dos Cravos em Portugal, também mostrava a tristeza e a dor que a opressão militar continuava provocando no Brasil.

junho 22, 2006

Piano na Mangueira



"A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira."
(Chico + Tom Jobim > 1993)

HISTÓRICO: Dia desses, fui a um dos motéis mais badalados de Goiânia. Não estou entre os maiores freqüentadores desse tipo de local, mas a ocasião pedia. E por uns instantes, me vi adolescente outra vez, na maior expectativa, sonhando com cama redonda, banho de espuma, espelhos, hidromassagem e - claro! - muitas horas de sexo. Tentei me esquecer do quanto são bregas as decorações de motel e da fobia que tenho em relação à falta de higiene desses antros de amor e perdição - aqueles lacres de "esterilizado" não me convencem. Mas enfim... Estava lá e muito bem acompanhado: a noite tinha tudo para ser perfeita. No entanto, um detalhe vai ficar para sempre na memória. Na tentativa de escolher a iluminação certa para encher o ambiente de romantismo, não pude conter o riso quando - ao abertar um dos inúmeros botões do painel de luzes - o teto e a sanca se coloriram de verde-e-rosa. Putz! Não tem romantismo que resista àquilo. Ainda que eu seja um mangueirense apaixonado, a combinação cromática foi demais para o momento. Fiquei pensando nas piadinhas infames que as cores da Estação Primeira costumavam gerar. Mas tratei logo de clicar outro botão para encontrar a penumbra aconchegante de uma luz amarelada mais fraquinha. E como o amor transforma tudo, do carnaval fez-se um "grand pas de deux" e a noite acabou sendo mesmo inesquecível.

junho 13, 2006

Pivete



"No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé

(...)

Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até."(Chico + Francis Hime > 1978)

HISTÓRICO: Assisto apático a toda essa histeria em torno da Seleção e de mais uma Copa do Mundo. Nos noticiários, parece não haver coisa mais importante para ser mostrada. Nas ruas, o verde-e-amarelo arranca elogios e defesas exaltadas de torcedores de todas as idades e classes sociais. De uma hora para outra, é como se a economia tivesse se transformado e a produção dado um salto fenomenal. Só isso justificaria o fato do país parar - literalmente - por causa de um jogo. Sinceramente, gostaria de ver tanta disposição e união em função de causas mais nobres. Eu abriria mão de todos os títulos do Brasil por investimentos mais sérios na educação. Entregaria esse "sonho do hexa" em troca de uma política social decente que nos tirasse da vergonhosa lista dos 10 países com a pior distribuição de renda do mundo. E sentiria mais orgulho de ser brasileiro, se nossas crianças e jovens fossem craques com livros nas mãos e não com bolas nos pés.

junho 01, 2006

Dueto



"Consta nos astros
Nos signos
Nos búzios
Eu li num anúncio
Eu vi no espelho
Tá lá no evangelho
Garantem os orixás
Serás o meu amor
Serás a minha paz

Consta nos autos
Nas bulas
Nos dogmas
Eu fiz uma tese
Eu li num tratado
Está computado
Nos dados oficiais
Serás o meu amor
Serás a minha paz

Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar?

Mas se o destino insistir
Em nos separar?

Danem-se
Os astros

Os autos
Os signos
Os dogmas
Os búzios
As bulas
Anúncios
Tratados
Ciganas
Projetos
Profetas
Sinopses
Espelhos
Conselhos
Se dane o evangelho
E todos os orixás
Serás o meu amor
Serás, amor, a minha paz."
(Chico > 1979)


HISTÓRICO: Felizes. Era assim que eu estavam naquela noite. Uma história sonhada sim, mas - principalmente - construída com carinho, com afeto, suor (muito) e lágrimas (poucas). Tudo foi dando tão certo que parecia mesmo estar escrito que tinha de acontecer. Certamente, eles rabiscaram algumas linhas, apagaram parágrafos inteiros e escreveram muitas outras páginas. Afinal, para amar não existe receita pronta e testada. É preciso querer muito, arriscar, rever, aprender, ensinar, respeitar... sempre e um dia mais. Amém!

maio 26, 2006

Nicanor



"Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor
Há tanta moça na espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor

Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro
Um peito de remador
Ah, quem me dera as morenas
Pra consolar suas penas
Para abrandar seu calor."
(Chico > 1969)


HISTÓRICO: Estimulado por uma gincana cultural hospedada no site do Chico que visava à divulgação do cd "Carioca", pus-me a pensar sobre o paradeiro do galanteador personagem da canção de hoje. E vocês não fazem idéia das viagens que idealizei a partir dessa proposta. A pergunta era "Onde andará Nicanor?" e - depois de imaginar muitas possibilidades - respondi assim: "Elas eram doces, cheirosas e ardentes... E muito observadoras também. Não demoraram para notar que ele andava com as mãos sujas de terra de outros canteiros. Vingativas, armaram uma para Nicanor. Assim que chegou ao jardim de Margarida, o moço deu de cara também com Rosa, Magnólia, Hortênsia, Yasmim, Violeta, Dália, Camélia e Amarílis. Ataram-no com aqueles nós que ele tão bem conhecia e arrastaram aquele corpo - outrora tão desejado - até o porto. Lançado ao mar, ele sorria. A água distorcia a imagem do cais, misturando e multiplicando todas as flores. Era o jardim mais lindo que cultivara. E nunca pensara que mereceria tantas cores e perfumes na hora do seu último adeus."

maio 23, 2006

Uma palavra



para amigos e amigas

"Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

(...)

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra."
(Chico >1989)


HISTÓRICO: Nas suas bocas, as palavras ganham dimensões que não encontro tradução em dicionário algum. Presto atenção em cada sílaba para que os significados não me escapem. Porque eles - quando falam - mexem com muitas emoções e sentimentos, estimulam mil sonhos e outras mil e uma esperanças. Dos lábios deles saem verdades, descobertas pelos (des)caminhos, encontradas sob pedras, reforçadas pela escrita ou lavadas por tantas lágrimas. Seus suspiros também falam de dúvidas, que me inquietam por me instigarem a (re)pensar minhas certezas. Às vezes, eles matam as palavras, esquecendo-se (será?) que aquele silêncio me revela muito. Calo, também... Sei que é preciso recarregar, ganhar forças, para que - num outro dia - as palavras sejam cuspidas como balas de um sorriso metralhador. E assim, atingido por elas, entrego-me à delícia de tantas histórias compartilhadas. Desprendo-me de tudo e - como num filme - relembro infinitas demonstrações de carinho, apoio e cumplicidade. E sussuro uma palavra: obrigado.

maio 17, 2006

Maninha



"Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal
Feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha
Falava de amor
Pois nunca mais cantei, ó maninha
Depois que ele chegou."
(Chico > 1977)

HISTÓRICO: Quando o Chico compôs essa canção, os tempos eram outros: a ditadura militar inibia, silenciava, torturava, matava... Ainda assim, o povo se rebelava, ia para as ruas, perdia a vida, nunca a voz. A guerrilha urbana - provocada pelo PCC nos últimos dias em São Paulo - me fez pensar no silêncio do "brasileiro pós-abertura". Não parece paradoxal? Há quanto tempo sentimos a violência se aproximar? Primeiro, da nossa cidade; depois, do nosso bairro, nossa rua, nossa calçada, nossa casa, nossa janela. E não fazemos nada, a não ser colocar grades, travas, alarmes, sensores, câmeras... Já passou da hora de irmos às ruas pedir respeito, segurança e atitude. Gritar, espernear, xingar, cobrar de quem é pago para garantir a nossa paz. Até quando vamos ficar nos escondendo, apenas esperando? Viver com medo é pequeno demais.